A misoginia e o machismo estão presentes em diferentes espaços da sociedade — e o setor cultural não está imune a essa realidade. Por isso, torna-se cada vez mais urgente que as políticas públicas de cultura sejam efetivas não apenas na democratização do acesso, mas também na defesa da vida, da dignidade e dos direitos das mulheres
Nos últimos anos, uma onda de ataques à vida e à dignidade feminina tem exposto uma realidade que muitas mulheres vivenciam diariamente, mas que ainda é frequentemente minimizada ou negada: a cultura que oprime, objetifica e ridiculariza mulheres também contribui para a manutenção da violência. Discursos inflamados sobre uma suposta superioridade masculina circulam com frequência nas plataformas digitais, reforçando estereótipos e legitimando práticas discriminatórias. Em dezembro de 2024, o Observatório da Indústria da Desinformação e Violência de Gênero nas Plataformas Digitais — iniciativa do Ministério das Mulheres em parceria com a Universidade Federal do Rio de Janeiro — publicou o relatório “Aprenda a Evitar ‘Esse Tipo’ de Mulher: Estratégias Discursivas e Monetização da Misoginia no YouTube”, que ajuda a compreender esse cenário midiático.
A misoginia é uma ideologia baseada no desprezo, no controle, na aversão e no ódio às mulheres. O relatório aponta que, ao mesmo tempo em que iniciativas voltadas à igualdade de gênero avançam em diferentes esferas, também crescem campanhas deliberadas de disseminação de misoginia, especialmente no ambiente digital. Segundo a Central Nacional de Denúncias de Crimes Cibernéticos, da associação SaferNet, o número de denúncias de misoginia online no Brasil saltou de 961 em 2017 para 28,6 mil em 2022 — um aumento expressivo em apenas cinco anos. Esse volume supera o registrado em outras categorias de denúncia, como xenofobia, racismo, LGBTfobia, intolerância religiosa e apologia a crimes contra a vida. Não se trata apenas de “brincadeiras” ou discursos sem consequências. A cultura é a dimensão simbólica da existência humana: envolve aquilo que criamos, os valores que compartilhamos, os hábitos que reproduzimos e a forma como nos relacionamos. Quando discursos que inferiorizam mulheres são naturalizados — em vídeos, falas públicas ou conteúdos digitais — estamos, de alguma forma, validando esse comportamento na sociedade.
Os dados da violência mostram como isso se materializa. Em 2025, o Brasil registrou 1.568 vítimas de feminicídio, um aumento de 4,7% em relação a 2024. Desde a promulgação da Lei do Feminicídio, em 2015, já são mais de 13,7 mil casos. As informações fazem parte do levantamento Retrato dos Feminicídios no Brasil, divulgado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública em março. O estudo também revela que as principais vítimas são mulheres negras e que a maior parte dos crimes ocorre dentro de casa.
A desigualdade de gênero afeta toda a sociedade e se manifesta de diferentes maneiras, inclusive no campo cultural. Em atividades culturais onde há maior presença masculina, as remunerações médias costumam ser mais altas. Em 2024, por exemplo, mulheres no setor cultural receberam em média R$ 2.560, enquanto homens receberam R$ 3.898, uma diferença de cerca de 34%.
Diante desse cenário, é fundamental afirmar uma posição clara e inegociável: é preciso ser radicalmente contra qualquer forma de discriminação ou violência contra as mulheres, sejam elas simbólicas, econômicas ou físicas. E as políticas públicas de cultura precisam reconhecer essa realidade e responder a ela, incorporando a promoção da igualdade de gênero como parte essencial da construção de uma sociedade mais justa.