Texto de Richard Serraria

Pelotas, charque, couro, sopapo, sangue, mão aberta tambor ou mão fechada punhal, princesa, sesmaria do monte bonito, beiradas do Arroio Pelotas, líquido Canal São Gonçalo, pantanoso Passo dos Negros. Pelotas, território sagrado do povo negro no estado do RS.

A economia do Rio Grande do Sul necessariamente precisa ser contada a partir da presença indispensável da mão de obra negra escravizada desde o século XVIII no Estado, agigantando-se tal contribuição no século XIX, com o apogeu das charqueadas. É desse território que o tambor sopapo é oriundo e dia 21 de agosto de 2025, a Bataclã FC recebeu seu mais recente tambor advindo do clã Batista.

O I Encontro de Agentes Territoriais de Cultura da Região Sul realizado no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia Sul-rio-grandense (IFSul), em Pelotas, teve a participação da Bataclã FC e produção local de Renata Pinhatti. As fotos são de Náthaly Weber, Agente Territorial de Cultura e parte da equipe Bataclã FC desde 2014, sendo a autora das fotos do encarte do CD lançado em 2015. Imagens em vídeo foram captadas por Glênio Rissio, Griô Digital, figura marcante na implementação da Radiocom em Pelotas dentre inúmeras outras ações relevantes.

Em Pelotas, Bataclã FC retornou ao território sagrado, útero mãe do sopapo, Rua São Jorge, Bairro Santa Terezinha. Coisas de um clã parteiro que segue batizando novos sopapos. NAVAL, o filho recém-nascido, ontem desmamado na estreia com as mãos de Sandro Gravador acariciando o rebento Eshúmido, pois é da alma de Pelotas os dias líquidos. NAVAL, o sopapo lá vai! Especialmente construído por José Batista (e entregue com Nina Grace) para a Bataclã FC dia 21 de agost,o nas beiradas do Canal São Gonçalo.

A Bataclã FC orgulha-se de em 1999, trazer para Porto Alegre, um sopapo desde o Colégio Pelotense na gênese do Projeto Cabobu. Tal sopapo, hoje, é usado pelo grupo Nobre Tamboreiro e caracteriza-se por um grave absoluto e aveludado.  A Bataclã FC participou da fundação do Ponto de Cultura Quilombo do Sopapo em 2008, sendo escolhida para ser madrinha do espaço. Em 2010, fez a trilha do documentário O Grande Tambor (Serraria, Redenção e Mestre Paraquedas). Em 2011 a Bataclã FC recebeu Selo Cultura Viva do Ministério da Cultura (MINC) por seu trabalho de valorização do sopapo.

Tal tambor será o astro principal do disco e show novo, Sopapo Beat. Enquanto o show novo não chega e segue a saga encantada PAI GUAÍBA agigantado com bonecas Andarilhas do Quilombo do Sopapo, NAVAL já vai se ambientando com a gente laranja sendo acariciado por Sandro Gravador, neto do Cacique Pena Branca da Tribo Carnavalesca – Os Tapuias. As tribos eram território sagrado dos Sopapos ao longo do século XX, numa história que remete à década de 1940, com a fundação dos Caetés em 1945.  O futuro é ancestral e a Bataclã FC é ação concreta há 28 anos engajada no protagonismo do sopapo.

Créditos: Náthaly Weber

 

Alupo Sopapo!

Pai Guaíba é um manifesto, ainda mais quando apresentado em Pelotas.

Pai Guaíba é uma canção surgida em 2001 e gravada em 2002. Pai Guaíba de certo modo é uma profecia triste das cheias de maio de 2024. Bataclã FC com seu peculiar artivismo poético alertava lá no início do século para a relação da cidade com o manancial de águas. Pouco foi feito em termos de despoluição e isso, conjugado com o descaso das sucessivas administrações neo liberais na prefeitura de Porto Alegre nas eleições mais recentes, fez com que a população pobre e sobretudo negra que habita as beiradas do rio Guaíba fosse a parcela mais atingida na enchente de 2024.

Racismo Ambiental se chama isso e a Bataclã FC encampou tal pauta como uma luta política e necessária de ser feita hoje. A transformação do espaço urbano, em prédios verticais e condomínios horizontais, feita de maneira desordenada e com a conivência da atual gestão municipal privatista leva a um quadro cada vez mais drástico já que as mudanças climáticas não são ocasionais e vieram definitivamente pra ficar. Nossa ideia é seguir denunciando e atuando diretamente junto aos movimentos sociais que resistem à sanha privatista vigente no paço municipal.  Não estamos sozinhos, Bataclã Faz Coletivamente.

“São arroios mestiços, mãe cabocla sorriu, todos em visita ao grande Pai Guaíba, lago que na boca do povo é rio”.

Obrigado a equipe de mais de 30 pessoas que esteve envolvida direta ou indiretamente na movida da gente laranja.  A Curadoria Sofá na Rua esteve presente no show Pai Guaíba dia 21 em Pelotas. A valorização e o protagonismo femininos, características do Sofá na Rua, se fez presente na Curadoria de Renata Pinhatti também produtora executiva do show que em conversas de pré-produção com Richard Serraria sugeriu a presença de Biba Manicongo dentro do show da Bataclã FC em Pelotas. Sopapo Manicongo, presente!

Duke Jay da Monte Cristo, Sandro Gravador, Pingo Borel, Vitor Curth,  Danilo Marcondes, Marcelo Corsetti e Antônio Flores mais Serraria. Essa foi a banda. Equipe técnica e administrativartística: Cristiano Adeli, Clauber Scholles,  Leandro Gass, David Morales, Tuti Rodrigues, Renata Pinhatti, Náthaly Weber. Participações Especiais das bonecas Andarilhas do NUTA do Quilombo do Sopapo, Dona Lair Vidal Rainha Ginga de Cachoeira do Sul, José Batista, Nina Grace, Biba Manicongo, Bruno Negrão e Beats & Tambores mais Glênio Rissio e bgirl Maria Eduarda e bboy Lucas Falcão

Direção Cênica de Leandro Silva

Direção Artística: Richard Serraria

Produção Geral: Lunar do Sopapo e Renata Pinhatti

21 de agosto 2025, Pai Guaíba, Bataclã FC no IFSUL Pelotas durante o 1o. ENCONTRO REGIONAL DOS AGENTES TERRITORIAIS DE CULTURA, Ministério da Cultura, Brasil. Ano da luta de 2025.

Créditos: Náthaly Weber