por Náthaly Weber, Agente Territorial de Cultura (PNCC)

Meu interesse e, posteriormente, completo encanto pelo Quicumbi de Cachoeira do Sul, surgiu desde a minha chegada na cidade, em 2008. Na época, iniciamos o primeiro movimento no sentido de contribuir com a cultura negra local e também por uma necessidade de ecoar e preservar as vozes de tantas pessoas que desabafavam suas histórias e de suas famílias. Muitas dores, muita violência, muitas denúncias. Mas, também, um legado cultural indiscutível que estava sendo esquecido. Tudo isso foi registrado no documentário “se não me falha a memória” de Rafael Bavaresco (in memoriam), meu companheiro na época. Um cachoeirense desgarrado que retornava depois de mais de vinte anos. Como pessoa que cresceu em meio às culturas populares da sua terra natal, São Luís do Maranhão, que trouxe para o sul um pouco de suas raízes em forma de discos, livros, vestimentas, instrumentos, entre outras lembranças, isso me atravessou. Uma mistura de tristeza e estímulo a buscar mais informações. A partir desse movimento, conheci o Quicumbi pelas falas do pesquisador, músico e compositor Alexandre Florez, da pesquisadora e etnomusicóloga Luciana Prass, que já sinalizava a produção do seu livro “Maçambiques,Quicumbis e Ensaios de Promessa: musicalidades quilombolas do sul do Brasil” e da professora e pesquisadora Lair Vidal que foi a nossa guia pela história da população negra de Cachoeira do Sul.

Nos anos seguintes, o universo me levou a outros caminhos em Porto Alegre, uma perda irreparável, e não demoraria muito para me levar de volta ao Quicumbi. Em 2014, conhecia o grupo Alabê Ôni, hoje Nobre Tamboreiro, e ouvia mais uma vez aquela música, aqueles toques e danças. No ano seguinte, Richard Serraria me convidava para fazer parte do grupo como produtora e dançante. Mais do que isso, fui uma aprendiz atenta e dedicada a seguir adiante com o compromisso que eles tinham e ainda tem de fortalecer as congadas do Rio Grande do Sul e retomar o Quicumbi em Cachoeira do Sul.

De volta a Cachoeira em 2017, já tinha como missão dar continuidade ao documentário “se não me falha a memória”. Lançado oficialmente em 2018, ele foi a base para a criação de um projeto que desenvolveu ações como um apoio para professores colocarem em prática a Lei 10.639. Surgia o Sarau da Memória, com formações, palestras e oficinas abordando os temas trazidos pelo documentário, incluindo o Quicumbi. Em 2019, através do projeto, conheci o grupo de Quicumbi do Quilombo Rincão dos Negros reforçando que seguiria esse caminho de pesquisar e reviver essa manifestação em Cachoeira do Sul. Após a pandemia de covid 19 que impediu que os trabalhos continuassem e os planos de avançar com as pesquisas tiveram que dar uma pausa, em 2021, os caminhos se reabriram. Fundamos, eu e um grupo de artistas e produtores culturais da cidade a Associação Cachoeirense de Culturas Populares e Tradicionais Rainha Ginga se propondo a criar espaços de visibilidade para as culturas populares e tradicionais e também gerar trabalho e renda para fazedores de cultura desses segmentos.

Nesse mesmo ano, o projeto Sarau da Memória – Retomando fazeres ancestrais foi contemplado no Edital Sedac n° 09/2021 FAC Expressões Culturais, através do PRÓ-CULTURA RS, Fundo de Apoio à Cultura, do Governo do Estado do Rio Grande do Sul. O subtítulo já se referia a uma das metas do projeto que era a recriação do Cortejo de Quicumbi de forma artística. Ao longo de 2022, realizamos oficinas de dança e cânticos de Quicumbi no Quilombo Cambará e em escolas públicas da cidade, em especial localizadas em territórios negros tendo como uma das principais fontes o já consolidado livro da Luciana Prass. Com ele, retornei ao Quilombo Rincão dos Negros, revistei os aprendizados com o Richard Serraria e o Alexandre Florez, estava tudo ali, as músicas descritas, as histórias que costuravam uma ligação com Cachoeira do Sul. Somei com as pesquisas mais recentes do antropólogo Vagner Barreto e os achados da pesquisadora Lair Vidal.

Em novembro daquele ano, acontecia a primeira edição do Cortejo de Quicumbi – retomando fazeres ancestrais, reunindo cerca de 100 pessoas com a condução do grupo Alabê Ôni e o grupo de Quicumbi do Quilombo Rincão dos Negros de Rio Pardo. Foi fantástico! Recontar essa história circulando nos espaços onde por muitos anos as pessoas negras não podiam passar. Ocupar com arte e com gritos de denúncia e resistência. Como disse o Vagner Barreto, no Cortejo de Quicumbi as pessoas negras eram vistas como Reis, Rainhas, eram esperados, eram enaltecidos pelas ruas da cidade com suas músicas, roupas e alegria. Nesses momentos, não eram apenas negros escravizados, tinham garantido seu direito de existir, de estar e de serem felizes. E essa passou a ser a proposta anual, uma celebração, um reencontro com a ancestralidade para a construção de novos caminhos para o futuro, principalmente de jovens negras e negros. O Cortejo de Quicumbi do projeto Sarau da Memória traz essa manifestação para a contemporaneidade por meio de intervenções artísticas, performances surpresas, homenagens a personalidades negras atuais e incluindo aos louvores para santos negros católicos, a reverência à Santa Josefa, a considerada santa negra pela população cachoeirense. A presença do Cortejo de Quicumbi atualmente é como revisitar a história da cidade, na prática sobre essa manifestação negra, ancestral do samba regional e precursora de festejos de rua que surgiriam posteriormente. A recuperação dessa memória e a valorização dessas bases culturais são fundamentais para estabelecer o sentimento de pertencimento da população à sua cidade e seus festejos e pensar uma nova política cultural local que encare os festejos populares e tradicionais como impulsionadores econômicos fortes, geradores de trabalho e renda com potencial turístico, além de contribuir para o melhor desenvolvimento social e educativo de crianças e adolescentes.

A quarta edição realizada neste ano de 2025 foi ainda mais significativa, pois agora estamos presentes no Guia do Afroturismo no Brasil Roteiros e experiências da cultura afro brasileira do Ministério do Turismo em parceria com a UNESCO. Também este ano, contamos com o apoio do Programa Nacional dos Comitês de Cultura do Ministério da Cultura, através da minha atuação enquanto Agente Territorial de Cultura. Incluímos na programação um Círculo de Cultura trazendo para agentes culturais da cidade, experiências inovadoras de artistas e produtores de diferentes territórios para inspirar projetos e ações coletivas em Cachoeira do Sul. Tivemos as presenças de Anderson Gonçalves, produtor cultural e coordenador da Trupi di Trapu Teatro de Bonecos, Renata Pinhatti, articuladora cultural e coordenadora da Rede Sofá na Rua Brasil-Eixo Sul, Cláudia Ellen, Consultora em acessibilidade, presidente do Ponto de Cultura Associação Rainha Ginga, Leandro Silva, produtor cultural, artista bonequeiro e diretor teatral, atuante no Ponto de Cultura Quilombo do Sopapo, André de Jesus, produtor cultural, coordenador metodológico do Comitê de Cultura no RS e Mari Martinez, coordenadora do Escritório do MINC no Rio Grande do Sul.

Foram tantos momentos emocionantes na programação dessa quarta edição que não caberia aqui. Mas, é impossível encerrar esse relato sem dizer que essa ação também é uma “obrigação”. Não entendia bem no início, mas, hoje, sei que foi um chamado das Pretas Velhas e Pretos Velhos que me guiam e me acompanham desde a adolescência no Maranhão e que, aqui, me indicaram esse caminho de reencontro comigo mesma e onde poderia retribuir tudo de bom que recebi nessa minha nova casa. É a minha forma de oferecer alegria, união e o reconhecimento merecido a estes que por aqui passaram e continuam nos cuidando.